Jornal
/ Mai
2021

Nas palavras de Noé:
a coleção Burnt Cork

Quando me mudei para Portugal no verão de 2017, decidi conduzir desde França, uma viagem de três dias que fiz sozinho. Podia sentir a mudança a chegar à minha vida, o começo de um novo capítulo. Esta road-trip foi pautada pelo sentimento, pela procura e pela descoberta, narrada eloquentemente pela paisagem. Ao entrar no país, dei de caras com chamas, com florestas negras reduzidas a cinzas. Foi chocante conduzir por estas encostas em chamas, com um inferno a consumir a paisagem e a deixar um rasto de visível entropia. Assombrosamente negros, galhos de madeira queimada surgiam do chão onde antes existiam árvores. O poder do fogo fez-me estremecer, um dos cinco elementos vitais para a existência na Terra, uma peça-chave no desenvolvimento da cultura. Com a capacidade de transformar ambientes, subtilmente se controlado, e de maneira agressiva quando no seu estado mais indomesticado. O fogo é, ainda assim, algo que possui sempre beleza.  Parte de mim queria pôr isto para trás das costas, mas tirei fotos e esta experiência ficou comigo. Fez-me questionar a minha interação com a natureza, como designer e como consumidor. Sabia que iria voltar a surgir no meu trabalho feito aqui em Portugal.

“Era uma oportunidade de transformar o que restou dos incêndios, criando o nosso próprio material, como um renascimento. De trabalhar com estas pessoas e imaginar adaptações relevantes de várias realidades. A realidade do fogo, a realidade de como usar blocos de cortiça, a realidade da produção manual e da tecnologia. No final de contas, o fogo instiga uma transformação. Nós apenas estamos a dar continuação a esse movimento, incorporando-o no design e nas peças finais, utilizando o máximo de material otimizado em específico para este projeto.”

Comecei a pesquisar sobre materiais tipicamente portugueses quando a Made in Situ nasceu. A cortiça estava no topo da lista, sendo um material com uma presença marcante tanto na história como no presente de Portugal.

 

No Algarve, visitámos uma família local que produz blocos de cortiça aglomerada, usados normalmente na construção civil. O casal Nuno e Tânia herdaram da família a empresa NF Cork, e estavam à procura de novas maneiras de utilizar a cortiça e tornar o processo mais sustentável.

 

Durante a visita, reparei numa pilha de restos de cortiça queimada. Enquanto visitávamos as instalações e aprendíamos sobre o processo de criação dos blocos com granulados de diferentes tamanhos, era assaltado pelas imagens daquela pilha de cortiça queimada. Eu queria utilizar esta cortiça rejeitada, dar uma nova vida a um material que, caso contrário, não seria utilizado.

 

Era uma oportunidade de transformar o que restou dos incêndios, criando o nosso próprio material, como um renascimento. De trabalhar com estas pessoas e imaginar adaptações relevantes de várias realidades.

 

A realidade do fogo, a realidade de como usar blocos de cortiça, a realidade da produção manual e da tecnologia. No final de contas, o fogo instiga uma transformação. Nós apenas estamos a dar continuidade a esse movimento, incorporando-o no design e nas peças finais, utilizando o máximo de material otimizado em específico para este projeto.

 

Após criarmos o protótipo dos nossos primeiros blocos, queríamos encontrar mais um parceiro, desta vez alguém que trouxesse a alta tecnologia necessária para esculpir este material. Foi com isso em mente que nos deparámos com a empresa industrial Granorte, do norte de Portugal. Integrada no coração da indústria da cortiça, é igualmente uma empresa de família. Assim, demos por nós a colaborar com uma talentosa equipa e a utilizar uma máquina CNC de 7 eixos para criar as formas orgânicas. Existe aqui uma dicotomia, entre a empresa de família que cria os blocos à mão e a empresa industrial que esculpe formas orgânicas através de uma máquina. Ambas se dedicaram de corpo e alma ao projeto, rompendo com as suas zonas de conforto para produzir estas peças.

“Queria que quem usufruísse da coleção tivesse uma conexão direta com a cortiça, tal como esta está na árvore. E, implicitamente, com o gradiente da crueza ao refinamento. Como uma ligação direta à história e ao processo do material em si.”

Há uma certa tensão que esteve sempre presente, desde o início do projeto. Da paisagem dramática após os incêndios devastadores, dos restos queimados e descartados de uma casca que leva 9 anos a crescer para poder ser recolhida, da empresa de família que luta para sobreviver à grande indústria e aos monopólios, até à tensão de quebrar limites em nome da inovação enquanto se apoia a tradição. A ideia da fénix a surgir das cinzas foi, para mim, a maneira mais clara de visualizar estes aspetos do desenvolvimento do design e do projeto. A maneira como, através da criação destas peças, criámos uma nova maneira de trabalhar este material, novas ferramentas, como combinámos alta tecnologia e técnicas manuais e comemorámos o que restou após as chamas. Esta paixão de todos os envolvidos em tirar um resultado positivo de uma situação tão difícil foi o fio condutor ao longo de todo o projeto.

 

Queria que quem usufruísse da coleção tivesse uma conexão direta com a cortiça, tal como esta está na árvore. E, implicitamente, com o gradiente da crueza ao refinamento. Como uma ligação direta à história e ao processo do material em si.

 

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