Jornal
/ Set
2020

Barro Negro - Uma colecção que une a materialidade aos sentidos, à terra e ao fogo, à comida, ao cheiro, ao toque e à luz.

Porquê cerâmica negra?

Senti-me atraído pela imersiva cerâmica negra, o Barro Negro, na nossa visita aos arquivos do Museu Nacional de Etnologia. O material tem uma profundidade associada, a maneira como absorve a luz e regista o seu processo de criação, parecendo carvão mas com uma densidade que lhe confere uma força interessante. Indo mais fundo, deparei-me com a Soenga, uma técnica antiga de cozedura em covas que é ainda hoje praticada na aldeia de Molelos.

 

Descreva o seu processo de co-criação

Procurei a Alexandra Monteiro (Xana) e o Carlos Lima, dois mestres artesãos desta aldeia. Foi um “ping-pong” interessante entre a minha visão e aquilo que a Xana e o Carlos queriam e eram capazes de fazer com as limitações técnicas do material, das ferramentas e do processo.

 

No nosso primeiro encontro, trouxe desenhos e conceitos do que queria desenvolver com Barro Negro. Eles estudaram-nos cuidadosamente mas estavam reticentes.

São artistas e os projetos que fazem são projetos que acham interessantes, projetos que interagem com aquilo que estão a criar e desenvolver através da evolução dos seu próprios corpos de trabalho. Para a Xana e o Carlos, tudo se baseia muito em eu entrar no mundo deles e eles entrarem no meu. Tivemos de entender a história uns dos outros, quais as nossas origens, de que modo criamos.

 

Naquele primeiro dia, almoçámos juntos, partilhando comida e vinho, começando a desvendar o que éramos. Eles disseram-me “Se queres trabalhar connosco, tens de passar tempo connosco.”

 

E assim começou a nossa colaboração. A cada passo do caminho, viajei com a minha equipa para trabalhar com eles, mãos no barro; era necessária esta troca pessoal ao desenvolver as peças, tanto em termos de perceber o processo de pensamento como a questões técnicas de como as peças seriam feitas.

 

A conexão é o conceito basilar da coleção, pode falar-nos sobre isto?

É bastante simples; a conexão foi a maneira mais clara que encontrei para ilustrar o sentimento da Soenga, dos artesãos e da comunidade a reunirem-se para celebrar esta tradição. É realmente algo muito trabalhoso. Senti-me imediatamente compelido a criar um tributo a estas pessoas na sua comunhão. Uma aldeia, uma ideia e um momento.

Criar uma coleção de peças que se conectem entre si veio-me imediatamente à ideia. Comecei a desenhar espontaneamente interconexões e elos entre formas, como as rochas graníticas da Serra do Caramulo. O princípio de um conjunto de 12 vasos para se colocarem em círculo ou numa linha veio aumentar a ideia de comunidade e reunião. Esta coleção é para mim um eco de um aspeto fascinante da cultura local onde as ligações sociais são muito fortes e autênticas em Portugal.

Como é que a coleção evoluiu?

Ao aprender com os erros e com o fluxo cronológico do projeto.

No início tinha pensado e feito desenhos de tinta para formas muito mais complexas. Levei-os para os mostrar à Xana e ao Carlos e eles explicaram-me que o seu trabalho é feito numa roda de oleiro e que as peças necessitam ajustar-se a esta ferramenta. Tive de redesenhar com o gesto circular em mente, com o virar da roda, este movimento pelo qual as peças são puxadas e formadas. Disto e da ideia de conexão, surgiu a primeira tipologia da coleção: os Vasos Secos(Dry Vases).

 

A segunda, as Iluminações (Lights), vêm da paisagem local, dos pedregulhos, tão familiares para mim, tão parecidos às rochas de granito rosa da minha infância. Fascinou-me muito a ideia de poder trabalhar com estes volumes e as relações espaciais que os mesmos originam. As iluminações (Lights) são a exceção à regra do círculo, eram impossíveis de fazer na roda de oleiro devido à complexidade das suas formas, então eu esculpi-as e fiz moldes de gesso. Isto não é algo com que a que a Xana e o Carlos estejam habituados a trabalhar mas, neste caso, era necessário, então encontrámos uma maneira de o fazer. A textura no interior é uma referência direta à composição da geologia local. Juntos escolhemos pedras do jardim deles que tinham colecionado ao longo do tempo, experimentámos e encontrámos as texturas certas para utilizar no interior do barro moldado.

Os vasos e as iluminações tiveram de ser cozidos no forno; são peças técnicas que requerem precisão e acuidade. Escusado será dizer que também queria mesmo criar algumas peças que tivessem sido cozidas na Soenga, afinal de contas isso foi o que me puxou inicialmente para a aldeia de Molelos.

 

Então, foi aí que o Soenga Momentum, composto por vasos e difusores de perfume, foi criado. Peças com uma tendência a interconectar-se e interagir enquanto estão a ser cozidas. Como têm de ser empilhadas e juntas na cúpula de turfa, lenha e chamas, as deformações que naturalmente daí advêm são parte da ideia. Os momentos de conexão entre cada elemento do grupo são determinados pela maneira como as peças são colocadas, o que abre caminho a alterações pelo contato. O movimento entre as peças que ocorre naturalmente durante a Soenga leva à singularidade de cada uma, marcas daquele fogo, daquele grupo, daquele momento único.

 

As formas dos Vasos são inspiradas por recipientes tradicionais, aqui idealizados especificamente como telas em branco, sem adornos, que obtêm a sua identidade através da Soenga. Se alguma se parte, como acontece com algumas, elas permanecem presentes através da sua ausência, devido à sua influência nas restantes.

Os difusores de perfume nasceram de material, ambiente e sensações. Queria criar algo que fosse imersivo, para trazer e partilhar às pessoas, a experiência que tive ali. Queria partilhar esta coleção através de todas as dimensões sensoriais, através de algo para além do toque e da visão.

 

Na nossa primeira visita acordámos muito cedo para sair às 6 da manhã e tirar fotos da paisagem. Estava um nevoeiro denso e não conseguíamos ver nada, mas de qualquer das formas continuámos a conduzir montanha acima, conduzindo através do nevoeiro que se tornava num mar ondulante de nuvens quanto mais subíamos. Quando chegámos ao topo, o sol estava a brilhar num céu fantasticamente azul e foi uma manhã belíssima. Esta experiência foi um momento muito forte de atmosfera. Devido à porosidade do material, as peculiares experiências atmosféricas nas poderosas montanhas que o rodeiam e o fumo, as chamas e a terra da Soenga, os difusores de perfume apresentaram-se-nos como um meio através do qual poderíamos explorar e partilhar a experiência sensual que é este lugar de um modo integral.

 

Através dos sentidos e das emoções, é-nos permitido viajar. A coleção Barro Negro é feita in situ, no verdadeiro sentido da expressão.

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