Jornal
/ Set
2020

8 Questões a
Noé Duchaufour-Lawrance

Porquê deixar a França e escolher Portugal?

Escolher um novo país significa sair da nossa zona de conforto, olhando e depreendendo as coisas de uma maneira diferente. Eu cresci na Bretanha, em França, estava a viver em Paris e à procura de um sítio para respirar e olhar para o horizonte, era uma altura na minha vida em que precisava realmente da sensação de espaço e de um sítio com um espírito de génese. Estes pontos são necessários e inspiradores para o meu trabalho. Em Portugal, o posicionamento geográfico oferece-nos esta oportunidade, o oceano e a terra.

 

Trabalhei muito na minha vida, tendo um carinho especial pelo meu tempo passado com artesãos. Também acho a indústria fascinante, todo o processo que envolve humanos. Eu queria encontrar um sítio onde o design fosse parte da produção.

 

Portugal é um país em mudança – parece que neste momento está em transição, assente na herança mas encontrando-se em movimento, e esta dinâmica é uma das suas vantagens. Sinto que é o único país que volta sempre a si mesmo. Ancorou-se por necessidade em certas tradições, e este elo forte ainda pode ser sentido aqui. O país mantém-se agarrado a uma certa forma de “simplicidade” que, na minha opinião, é essencial. Escolher Portugal é seguir uma nova abordagem – ficar fisicamente próximo do trabalho dos artesãos, nas suas oficinas.

 

É cativante ser um estrangeiro num novo país, é algo novo e revigorante. A base deste projeto reside na sensação, nos momentos de entusiasmo ao longo dessas explorações, como no início de uma história de amor.

"Portugal é um país em mudança - parece que neste momento está em transição, assente na herança mas encontrando-se em movimento, e esta dinâmica é uma das suas vantagens."

Quão importante é a cultura, o território?

Tornar-se parte do território é ir em busca de uma cultura. Significa mudar os nossos pontos de referência, demonstrar humildade, partir numa viagem dos sentidos. É também uma mudança de postura, aprender e (procurar) entender – colocar-se voluntariamente num ecossistema, com este desejo de desenvolver profundamente a sua sensibilidade. Distanciar-se das coisas, olhar para uma cultura sem entrar em problemáticas, abordando a vida com um olhar, sensações e espontaneidade renovados. Isto dá à luz o projeto baseado na materialidade + pessoa + contexto e permite-me estar aberto a todas as possibilidades.

 

Como explicaria um ecossistema mais humano?

Através da simplicidade, procurando simplicidade e tendo bom senso. Se retirar o “sistema”, fica com o “eco”. Num ecossistema mais humano, estamos mais conectados com quem somos, estando fisicamente presentes no momento, tendo conexões diretas, contactando num circuito curto, não agindo como máquinas. Vivendo e agindo com consciência e não nos conformando com o impacto negativo que temos na nossa ecologia. O Design, desta maneira, não nos oferece respostas a um problema; ele serve como uma conexão, uma possibilidade de ser positivamente alimentado por estas relações, momentos e experiências.

"Eu chego com o meu conhecimento mas sem conhecimento - a minha história como designer não tem valor para os artesãos."

Não será assim desestabilizada a sua experiência como designer?

Isso é precisamente aquilo que eu quero. Eu chego com o meu conhecimento mas sem conhecimento – a minha história como designer não tem valor para os artesãos. As únicas coisas que contam são a minha sensibilidade, a minha capacidade de ouvir e a interação em si. Ao interagir com estas pessoas, eu fico cara a cara com algo diferente; mudo o meu ponto de referência e sou desafiado por limitações impostas pelas situações ou pessoas. Ao questionar a minha experiência, torno-me de novo num “fazedor”.

 

Está a falar de exploração sensorial, como se o Made in Situ estivesse a abrir novos campos de possibilidade para a criação “a quatro mãos”?

Ao iniciar novas circunstâncias de cooperação com e entre artesãos, criar a “quatro mãos” abre um rol de possibilidades. O artesão não é tanto o executor mas sim um interveniente no projeto. O que eu gostaria de propor é uma nova maneira de conceber o objeto, de desenhá-lo. Veja-se, por exemplo, a tinta com que escolho desenhar os meus primeiros esboços – as suas imprecisões características são uma porta que se abre a várias interpretações. Mergulhar verdadeiramente pelo espaço dentro, pelo contexto, pela atmosfera da oficina, pela vila, tudo isso me inspira. Não estou à procura de técnicas de execução imaculadas. Os designs nascem da experiência que alimenta o trabalho. Como ninguém está a pedir-me uma peça específica, temos a liberdade de enveredar por um caminho mais artístico, sendo livres para explorar e ser inspirados.

O que procura nesta aventura?

Criar de um modo diferente ao colocar o artesão no centro do processo – quero apoiar um modelo diferente, um projeto movido pelo propósito. Iniciar uma mudança através de relações saudáveis e diálogos constantes. Também espero dar mais significado e voz às formas e objetos que desenho e faço. Para alcançar tal coisa, reunimos uma equipa dedicada, abraçamos trocas inesperadas, criamos uma rede de talentos e adotamos questões, chegando a uma abordagem razoável, sustentável. É uma aventura, então é também um convite à descoberta, uma viagem a ser partilhada com estes artesãos e, consequentemente, com os futuros donos das coleções.

 

Sem restrições, com um contato direto com quem faz e com os materiais; será o Made in Situ uma procura por liberdade?

Creio que será, de certa maneira. Mas este projeto responde antes de tudo a um desejo pessoal de experimentar uma abordagem mais holística à criação. Unindo as várias aptidões e multiplicando as perspetivas, torna-se possível obter uma visão mais geral, para ver cada objeto de uma maneira mais integral e completa. Ao não definir nenhuma limitação a priori, a coleção torna-se mais rica, com detalhes inesperados que vamos encontrando ao longo do caminho. Através do Made in Situ, procuro criações plurais que façam sentido e que, do meu ponto de vista, façam parte de um processo de criação mais igualitário.

"Our physical and mental creative dialog nourishes us both."

Como é que sente que este processo está a ajudar os artesãos?

A ajudar, não sei bem dizer. A revigorar, sim. Ao participar no movimento rotineiro deles, vamos expandindo os limites uns dos outros. Aprendemos uns com os outros. Eu aprendo com a perícia deles e eles aprendem com a minha abstração. O nosso diálogo físico e mental alimenta-nos a ambos. Acabei por perceber que um artesão que não trabalha é um artesão que está a morrer. Um artesão é alimentado pela criação, doando a sua energia ao ato de criar. E nós estamos a doar a nossa energia à criação conjunta.

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